Muito Além da Estética

Não há dúvida quanto a principal razão pela qual os pacientes buscam um ortodontista – a estética. O desejo de melhorar a aparência facial e ter um sorriso agradável constitui a principal motivação para o tratamento ortodôntico. Entretanto, a obtenção de uma função mastigatória apropriada também constitui um objetivo muito importante dos tratamentos das más-oclusões. Diversas pesquisas já demonstraram que indivíduos com má-oclusão apresentam uma reduzida performance mastigatória (a medida objetiva da mastigação) quando comparados com indivíduos com oclusão normal. E, recentemente, publicamos um estudo longitudinal no qual foi demonstrado que o tratamento ortodôntico é capaz de restaurar as funções de mastigação e deglutição dos pacientes tratados.1

Mas por que mastigar bem pode ser tão importante para a saúde?

Normalmente relacionamos a mastigação com digestão. Ou seja, a mastigação constitui a primeira fase do processo digestivo, na qual preparamos o alimento para sua deglutição e posterior digestão (degradação mecânica e química dos alimentos).  De fato isto é verdade, entretanto a mastigação não constitui um evento essencial para a digestão, no sentido de que a ausência dessa fase inicial não prejudicaria significativamente a digestão dos alimentos. Deglutir os alimentos sem mastigar corretamente não impede o processo de digestão propriamente dito, visto que as atividades motora do estômago e enzimática do pâncreas são capazes de compensar possíveis deficiências da mastigação. O problema, portanto, não está relacionado com a possibilidade de digestão dos alimentos, mas sim com a qualidade desse processamento. A deglutição de partículas maiores, consequencia natural de problemas mastigatórios, pode aumentar significativamente o tempo de esvaziamento gástrico, aumentando também a produção de ácido, e favorecendo a instalação de doenças gástricas como a gastrite e úlceras.2

Na verdade, os benefícios de uma mastigação adequada vão muito além de uma boa digestão. O objetivo do presente artigo consiste em esclarecer os colegas sobre os inúmeros impactos da mastigação para a saúde geral. As evidências científicas sobre o assunto atestam cada vez mais a importância da famosa frase “a saúde começa pela boca”. 

Mastigação e Peso Corporal

Indivíduos com baixa performance mastigatória possuem maior chance de serem obesos.3 Esta relação aparentemente estranha entre mastigação e peso corporal decorre principalmente da seleção de alimentos. Isto é, a dificuldade mastigatória costuma levar os indivíduos a optar por alimentos mais macios e calóricos, geralmente ricos em carboidratos e pobres em fibras, vitaminas e proteínas. Além disso, o ato mastigatório constitui um estímulo para áreas do hipotálamo responsáveis pela sensação de saciedade. No longo prazo, portanto, acredita-se que a mastigação adequada possa contribuir para uma menor ingestão de alimentos, e consequentemente para um menor ganho de peso corporal.

 

Fonte: www.scienceclarified.com

 

Mastigação e Distúrbios Endócrinos

Além dos impactos sobre o peso corporal, estudos em animais indicam que a ausência de uma mastigação adequada pode favorecer o desenvolvimento de intolerância à glicose e diabetes. Foi o que mostrou uma pesquisa realizada em camundongos, na qual metade dos animais ingeriu uma dieta dura, com necessidade de mastigação, enquanto que a outra metade ingeriu a mesma dieta em forma de purê, sem a necessidade de mastigação. Os animais que não mastigaram apresentaram maior peso corporal, maiores níveis glicêmicos, e duas vezes mais chances de desenvolver diabetes.4 A principal explicação para os efeitos positivos da mastigação sobre os resultados está relacionada a capacidade da mastigação em estimular a liberação de insulina, principal hormônio regulador (redutor) da glicemia.

Mastigação e Saúde Mental

Diversos estudos bem controlados, realizados tanto em humanos quanto em animais, apontam uma série de benefícios da mastigação sobre o funcionamento do sistema nervoso central.5 Não podemos esquecer que a boca representa a região mais rica em receptors neurais do organismo, sendo que sua estimulação através da mastigação provoca a ativação de inúmeras áreas cerebrais, várias delas responsáveis pelos aspectos cognitivos de atenção, raciocínio, aprendizagem e memória.

Ao mastigar, literalmente provocamos intensa irrigação sanguínea de áreas cerebrais importantes, sendo que essa maior perfusão cerebral pode estar relacionada a um melhor funcionamento das micróglias, células cerebrais responsáveis pela limpeza de substâncias tóxicas que se acumulam no tecido nervoso. Uma dessas substâncias, a proteína beta-amilóide, por exemplo, pode estar relacionada com o desenvolvimento de doenças neuro-degenerativas, como a doença de Alzheimer. Interessantemente, várias pesquisas indicam que a perda de dentes pode ser um fator de risco para a doença, apesar de a causa do problema ainda ser desconhecida.6-8

Após este breve resumo sobre as principais relações entre mastigação e saúde geral, fica claro que esta função possui mais impactos sobre o organismo do que simplesmente contribuir com a digestão. Todo o profissional responsável pelo restabelecimento da oclusão e da função mastigatória deve, portanto, estar ciente do seu relevante papel na manutenção do bom funcionamento do organismo como um todo. Todas as evidências apresentadas neste artigo reforçam a importância da valorização do ortodontista como um profissional diferenciado, cuja influência na vida dos pacientes certamente vai muito além da estética.

Por Gustavo Hauber Gameiro*

*Cirurgião-dentista – UPFEL
Mestrado em Odontologia – UNICAMP
Doutorado em Odontologia – UNICAMP
Doutorado em Ortodontia – UNICAMP
Professor de Fisiologia – UFRGS


 

Referências:

  1. 1- Gameiro GH, Magalhães IB, Szymanski MM, Andrade AS. Is the main goal of mastication achieved after orthodontic treatment? – A prospective longitudinal study. Dental Press Journal of Orthodontics. 22(3); 2017.
  2. 2- Sierpinska T, Golebiewska M, Dlugosz J, Kemona A, Laszewicz W. Connection between masticatory efficiency and pathomorphologic changes in gastric mucosa. Quintessence Int. 2007;38(1):31-7
  3. 3- Isabel CA, Moysés MR, van der Bilt A, Gameiro GH, Ribeiro JC, Pereira LJ. The relationship between masticatory and swallowing behaviors and body weight. Physiol Behav. 2015 Nov 1;151:314-9.
  4. 4- Nojima K, Ikegami H, Fujisawa T, Ueda H, Babaya N, Itoi-Babaya M, Yamaji K, Shibata M, Ogihara T. Food hardness as environmental factor in development of type 2 diabetes. Diabetes Res Clin Pract. 2006;74(1):1-7.
  5. 5- Weijenberg RA, Scherder EJ, Lobbezoo F. Mastication for the mind–the relationship between mastication and cognition in ageing and dementia. Neurosci Biobehav Rev. 2011;35(3):483-97.
  6. 6- Gatz, M.,Mortimer, J.A., Fratiglioni, L., Johansson, B., Berg, S., Reynolds, C.A., Pedersen, N.L., 2006. Potentially modifiable risk factors for dementia in identical twins. Alzheimers Dement. 2, 110–117.
  7. 7- Kim, J.M., Stewart, R., Prince, M., Kim, S.W., Yang, S.J., Shin, I.S., Yoon, J.S., 2007. Dental health, nutritional status and recent-onset dementia in a Korean community population. Int. J. Geriatr. Psychiatry 22, 850–855.
  8. 8- Noble JM, Scarmeas N, Papapanou PN. Poor oral health as a chronic, potentially modifiable dementia risk factor: review of the literature.Curr Neurol Neurosci Rep. 2013;13(10):384.